(Jasão entra)
JASÃO — Joana... (Tempo)
JOANA — Fala baixo que os meninos tão dormindo...
JASÃO — E você, como é que vai?...
JOANA — Ah, eu vou bem, vou muito bem, Jasão!...
JASÃO — Você remoçou um bocado... Emagreceu... Ficou mais bonita... Parece uma menina...
JOANA — Você veio só debochar, Jasão, ou tem coisa séria pra dizer...
JASÃO — Joana, me escuta você assim bonita, ainda moça, enxuta, pode encontrar uma pessoa... Quer dizer, você pode tranqüilamente refazer a vida...
JOANA — Sei... E o que mais?...
JASÃO — Como, o que mais? Responde ao que eu tô falando...
JOANA — Me fode co'a vida e inda vem tripudiar? Vai dar conselho à puta que o pariu!
JASÃO — Escuta mulher, sabe que eu gosto de ti? Gosto muito, você sempre é meu bem-querer, sempre. E nunca mais eu vou poder esquecer você, esquecer o que você fez por mim...
JOANA — 'Cê gosta da filha do Creonte, Jasão?
JASÃO — Não quero falar nisso agora...
JOANA — Responde duma vez, homem, toma coragem. Você gosta, mesmo, da moça?...
JASÃO — (Gritando) Mulher, pára. Deixa eu falar... Cedo ou tarde a gente ia ter que separar. Quando eu te conheci, tava pra completar vinte anos, não foi? Você era bem conservada, a carroceria, bom molejo e a bateria carregada de desejo. Então não queria saber de idade, e nem quero saber, porque pra mim o amor não vê documento, nem certidão. Só que dez anos se passaram desde então, e a diferença, que mal nem se via, a bosta do tempo só fez aumentar.
JOANA — Jasão, pega a tua mocidade e enfia...
JASÃO — Joana, você tem que se acalmar, começar uma vida...
JOANA — Que vida eu tenho pra começar?...
JASÃO — (Gritando:) Deixa eu falar, pô... É que, se quisesse, você inda tinha muito pra dar...
JOANA — Se tivesse o que dar, Jasão, você não ia perder a ocasião de me sugar até o bagaço
JASÃO — Ai, meu saco, cacete, pô... Presta atenção ao que diz! Não me venha com provocação.
JOANA — Pois bem, você vai escutar as contas que eu vou lhe fazer: te conheci moleque, frouxo, perna bamba. As marcas do homem, uma a uma, Jasão, tu tirou todas de mim. O primeiro prato, o primeiro aplauso, a primeira inspiração. E assim que bateu o primeiro pé-de-vento, assim que despontou um segundo horizonte, lá se foi meu homem-orgulho, minha obra completa, lá se foi pro acervo de Creonte...
JASÃO — Mulher, pára...
JOANA — Digo porque é verdade...
JASÃO — Eu lhe quebro essa cara!
JOANA — O quê? Quebra não!...
JASÃO — Eu lhe quebro a cara inteira, porra...
JOANA — Pra mim, Cacetão, que ao menos não nega ser gigolô, tem muito mais valor...
JASÃO — Não diz isso de mim, mulher...
JOANA — Não digo? Digo sim: gigolô!... (Jasão dá um tapa em Joana, que cai.)
...
JASÃO - Dei-lhe dez anos. Na fase em que tudo que é mulher já está servindo de escora pra guerreiro cansado e barrigudo, você tinha um homem novo ao seu lado, renovando pr'ocê a sensação de que uma vida tinha começado. Quanto vale?...
JOANA — Vale nada, Jasão. Amor com prazo fixo vale nada. Eu achei que você estava ao meu lado. Mas, foi sentir o sabor de uma ambição, que assim, da noite pro dia, eu deixei de te satisfazer...
JASÃO — Não foi por isso que eu me separei.
JOANA — Então, não foi...
JASÃO — Foi, você tem razão.
JOANA —Você é um submisso. Creonte manda: Jasão, vai dar cabo de tua mulher e teus filhos. Bota eles na rua. Jasão bota o rabo entre as pernas e vem...
JASÃO — Sua idiota, você não fala assim...
JOANA — Quer me bater? Vem!...
JASÃO — Não me atormenta a vida, mulher
JOANA — Então tenha a coragem de dizer: por que você me deixou?...
JASÃO — Você é viagem sem volta, Joana. Agora eu vou contar pra você, sem rancor, sem sacanagem, por que é que eu tinha que te abandonar. Você tem uma ânsia, um apetite que me esgota. Ninguém pode viver tendo que se empenhar até o limite de suas forças, sempre, pra fazer qualquer coisa. É no amor, é no trabalho, é na conversa, você me exigia inteiro, intenso, pra tudo, caralho... Foi por isso mesmo que eu te amei tanto, porque, Joana, você é um inferno Mas agora eu quero refresco, calma, o que contigo nunca consegui, nunca, nem um minuto. Já com Alma é diferente, relaxei, perdi a ansiedade, ela fica ao lado, quieta e a vida passa sem moer a gente.
*É como se esta música me hipnotizasse! A interpretação perfeita (em Montreux). Nunca pude deixar de perceber o arranjo perfeito da guitarra, como um diálogo.
O texto, dramaturgicamente falando, não é bom... Mas, algumas falas são tão intensas, que isso até passa batido. Me assusta, até. Acho que eu nunca teria a coragem...
Uma das histórias que me fazem chorar. Nem Medéia mexe tanto comigo, assim.
(Gota d'água - Chico Buarque e Paulo Pontes)
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